Quinta-feira, Dezembro 25, 2008

Lágrimas de Fada

- Não quero mais uma fada!

Foi tudo o que ele disse para mim, enquanto aqueles olhos verdes chispavam. Nenhuma outra palavra, nenhuma outra expressão. Apenas a decisão de um garoto de dez anos, com aquele olhar sério que nunca tinha visto antes.

Os meus olhos azul-dentro-de-azul se arregalaram e minhas mãos pousaram-se sobre meus lábios. A maioria das crianças, assim que dá seus primeiros passos e diz suas primeiras palavras, é presenteada com uma fada-companheira, para que possa ser protegida e ter uma companheira para seus primeiros anos. Eu, Carys, fui a fada designada para acompanhar o pequeno Harald., logo que ele completou três anos de idade.

Cheguei, como todas as fadas chegam, dentro de uma estrela-cadente, e não foi difícil apegar-me ao meu protegido. Eu contava para ele histórias durante a noite, acariciava seus cabelos quando se machucava, para que a dor pudesse passar. Encorajava a cordialidade, os estudos, o companheirismo, todas essas coisas que as crianças precisam para crescer. Brincávamos juntos, ríamos juntos, ele me dava lições com aquela sabedoria pura das crianças, mesmo que não soubesse disso.

Acompanhava-o junto de seus amigos, onde ficava sobrevoando e observando o transcorrer das brincadeiras. A alegria das brincadeiras infantis me deixava feliz também, mas às vezes eu me sentia posta de lado. Uma fada ciumenta, ora vejam!

Entretanto, há um detalhe cruel no contrato entre fadas e crianças: a fada pode acompanhá-la durante toda a sua vida mas, se a criança não desejar mais uma fada, esta poderá ser mandada embora e a criança se esquecerá de tudo aquilo que viveram juntos. Uma fada deve estar pronta para isso – o contrato não será necessariamente eterno, mas poderá ser rompido a qualquer momento.

Só que eu... me esqueci disso. Aqueles olhos gentis, aquele cuidado e aquela educação... Como eu não poderia ter certeza de que o contrato não seria eterno?

Mas não era e o pequeno Harald, ali em minha frente, repetia o que eu não queria ouvir.

- Desejo não ter mais uma fada!

Lágrimas cristalinas teimaram em cair dos meus olhos. Como um humano ousa tirar lágrimas de uma fada?, alguém poderia perguntar, mas para mim aquela violação não importava. Meu coração se partira em mil pedaços, meu mundo desaparecera na escuridão. Na verdade... eu fora mandada embora de meu próprio mundo, que se convertia naquele quarto, naqueles brinquedos... e naquela criança.

Por quê? Era tudo o que eu perguntava, enquanto voava em disparada para longe dali, daquele mundo que já não pertencia a mim. Seria a escola nova, ingressada naquele ano? Os amigos novos? De repente ter uma fada companheira tornou-se um fardo, uma coisa ruim, e minha presença tornou-se insuportável. Então o que eu tinha feito de errado para isso acontecer?

Era tudo o que eu pensava enquanto, sentada no miolo de um girassol, derramava mais lágrimas cristalinas. Importava? Abracei meus joelhos, aninhada entre as pétalas. Foram anos tão especiais para mim, por que acabaram assim tão de repente, como o bater das asas de um beija-flor? Era meu lindo castelo que desabava e me feria com seus escombros.

Tantos humanos, monstros e deuses desejavam ter uma fada e, de repente, alguém que a tinha simplesmente a dispensou! E, o que é pior, nunca mais poder ver aqueles olhos, aquele sorriso, ouvir aquela risada, fazer-lhe cócegas! Mas se ele desejava percorrer seu caminho sem mim, o que eu poderia fazer? Se queria sentir as dores do mundo sem uma fada a seu lado, quem era eu para crer no contrário?

Continuei voando rumo ao horizonte distante, as lágrimas cobrindo meus olhos. Não percebi quando cheguei à terra das fadas e fui abraçada por alguma companheira.

- Carys, como é bom vê-la depois de tanto tempo!

Não é preciso dizer que eu não gostaria de voltar. Simplesmente sorri educadamente de volta.

- Mas o que houve com você?

Contei toda a minha história de meu coração partido para ela, que me olhou com ternura e disse, enquanto acariciava meus cabelos azuis:

- A natureza das fadas é tão diferente da natureza dos humanos, minha querida... Mas vai passar, fique aqui em nossos campos o tempo que você precisar. Logo, você vai atender ao chamado de outro alguém e, quem sabe, poderá ser bem melhor do que foi.

Assenti, enquanto rapidamente me sentei em uma mesinha de cogumelos em um jardim, onde logo alguma outra fada apareceria para contar as últimas novidades. Sim, algum dia haveria outro contrato, mas, por enquanto, apenas aqueles olhos e aquele sorriso estavam na minha mente. E mais e mais lágrimas de fada insistiam em cair de meus olhos.

Terça-feira, Julho 08, 2008

O Jovem Aprendiz

O Jovem Aprendiz estava eufórico naquele Dia Tão Especial! Tinha conseguido pegar ligeiramente emprestado o Grande Livro de Feitiços de seu Poderoso Mestre! Claro, ele estaria com um Problema Muito Grande caso o Poderoso Mestre percebesse o que estava fazendo, mas não se importava com tal possibilidade naquele momento. Seu Caráter Ambicioso fazia com que ele relevasse os riscos, afinal havia um Objetivo Nobre por trás de tal atrevimento!


Percorreu rapidamente as prateleiras com os olhos para verificar que tudo estava ali: a escama de uma sereia, um fio da juba de uma quimera, uma unha encravada de um dragão verde dos pântanos... Tivera inclusive de negociar com Mercadores Obscuros para conseguir algum daqueles Ingredientes Especiais, mas não era algo que realmente tivesse importância, exceto, é claro, pelo Considerável Prejuízo em suas finanças.


Mas tal sacrifício valeria a pena! Não aguentava mais ter de decorar nomes de Magos Ilustres, ter de elaborar listas de ingredientes e fazer feitiços simplórios como poções do amor! Mas com aquela poção, mostraria ao Poderoso Mestre que já podia lhe ensinar a Feitiçaria Avançada!


O caldeirão borbulhava enquanto o Jovem Aprendiz despejava, devagar, trevos-de-quatro-folhas picadinhos. E o que poderia vir depois? Talvez o Poderoso Mestre se assombrasse imensamente com Tamanha Habilidade, talvez dentro de algum tempo poderia montar sua própria loja de poções, talvez o rei o chamasse para fornecer Feitiços Exclusivos, quem sabe logo não teria Jovens Aprendizes, ou até mesmo fosse o Maior Feiticeiro do Mundo?


Tais sonhos foram interrompidos por um Barulho Repentino, meio parecido com uma bolha explodindo, bem como por uma Meleca Esverdeada Malcheirosa que se espalhou por toda a sala. Que Amarga Decepção para o Jovem Aprendiz! Não sabia o que era pior: a Vergonha Previsível diante do Poderoso Mestre, o Problema Muito Grande advindo do fato de ter pego o Grande Livro de Magias sem autorização, o Considerável Prejuízo...


Nada disso, pensou ele rapidamente. Havia uma Consequência Bem Pior. Será que havia algum Feitiço Fácil de Fazer que Desaparecesse para Sempre com aquela Meleca Fedorenta?

Domingo, Julho 06, 2008

Programação de julho da Prisão de Vidro!

A Prisão de Vidro vem convidar seus ilustres leitores para a programação de julho do blog!

No dia 08/07, mais um conto da série "Personalidades Fantásticas"! Grandes Buscas, Principes Heróicos, Princesas Encantadas, Grandes Magos, Monstros Horrendos e O Que Mais Houver!

No dia 15/07, um conto com uma temática muito sutil de FC, mas que tem como linha condutora as mudanças que uma situação-limite exerce nas pessoas em geral!

No dia 22/07, teremos a estréia de uma nova série de contos, chamada "Rock 'N Roll"! Por que não associar duas paixões, a escrita e a música? Por que não sintetizar em um texto as sensações trazidas pelo som muito especial de uma banda? É esta a proposta dessa nova série!

No dia 29/07, um conto sobre um tema abstrato! O escolhido do mês foi o tema "Liberdade" - que, como o próprio nome do blog indica, é uma questão presente em todos os momentos, para cada um de nós!

Aguardem também as novidades do blog!

Domingo, Janeiro 13, 2008

Happy New Life

E 2008 chegou.

Promessa de ano-novo? Várias, mas que podem ser condensadas em uma só: olhar com carinho tudo aquilo que andei negligenciando nos últimos tempos. E foram várias coisas, algumas essenciais o suficiente para que eu não possa ser uma pessoa completa sem elas.

Hora de olhar pra trás, tirar a poeira e tratar de organizar o que precisa ser organizar, limpar o que precisa ser limpo e fazer o que precisa ser feito.

Pois o tempo é este.

Terça-feira, Setembro 04, 2007

Terça-feira

Energia criativa esgotada depois de uma brainstorm-monstro.

Tudo bem, não está esgotada.

E foi uma sensação MUITO prazerosa.

Quarta-feira, Agosto 22, 2007

A Gênese de um Novo Mundo

Estava diante do Conselho e, podia ter certeza disso, não havia uma única sombra de dúvida transpassando sua alma sobre qual seria a atitude a ser tomada. Não temia a reação dos Conselheiros – e nem teria o que temer, afinal, o máximo que poderiam fazer seria rir das requisições de uma “criança insolente”.

O Conselho era a autoridade máxima da Colônia – e não era difícil administrar pouco mais do que as duzentas e cinquenta pessoas que ali viviam naquele momento. Provavelmente, no futuro, findos os testes, enviariam mais duzentos indivíduos para compor a população local e talvez, caso aquele fosse um local viável, mais algumas centenas de pessoas para ali recomeçarem a vida.

Sentiu um calafrio percorrer sua espinha ao pensar em tal fato. Tinha plena consciência, desde que estudava na nave colonizadora, que o pedido a ser feito dificilmente seria aceito, mas arriscava apelar aos Conselheiros por um pouco de humanidade. E, talvez mais do que isso, lutar pelo que realmente fazia diferença a ele?

Sempre soube estar do lado de uma das pessoas mais especiais que jamais haviam existido no universo inteiro. Não por ser descendente dos genomas mais nobres já passados pelo planeta Terra, por ter sido criada como uma grande esperança e um grande passo para um avanço científico. Como clamar por humanidade de pessoas que nunca perceberam o quão frágil ela era? Que nunca a ouviram chorar após acordar de um pesadelo ou mesmo tomá-la braços quando se sentia sozinha.

Não saberia dizer quando começara a amá-la, talvez ao ver os olhos negros fitarem com curiosidade as paredes metálicas da entrada da nave e assustarem-se ao perceber que o interior da sala onde passaria a maior parte das horas dos próximos anos se parecia com a idéia de uma biblioteca européia de muitos séculos anteriores. Ali teria sua educação formal e seria preparada para o dever já determinado para ela e sobre o qual nunca teve escolha.

Talvez fosse uma coincidência adorável para as pessoas acima deles que ela houvesse ficado órfã ainda tão cedo e não tivesse pessoas a quem preocupar quando estivesse de partida para Alfa-Neo-Gaia. Provavelmente, o único adulto que a vira como uma menina que precisava de educação e afeto tinha sido o tutor para ela designado – seu padrinho, era um favor político a permissão para levar consigo o afilhado igualmente órfão e sem muitas perspectivas na Terra, apenas mais um na multidão.

Agora, ousava postar-se diante dos mesmos adultos e clamar por sua piedade...

- Qual é o pedido que justifica a audiência perante este Conselho, meu jovem?

- Por que, pelo menos por uma única vez, não vêem Alissa mais como uma garota e menos como um experimento em suas mãos? Vim aqui para expor minha disposição em desposá-la.

Os cinco Conselheiros riram-se como se o maior absurdo já dito naquele quadrante galáctico tivesse sido proferido.

- Acha que as decisões já planejadas e delineadas por anos seriam impedidas pelo simples capricho de um adolescente? O Dr. Hershells não conseguiu demonstrar a importância que Alissa tem para nós?

O jovem, porém, estava firme em sua convicção. A felicidade de Alissa estava em suas mãos, não havia ninguém que a pudesse fazer mais feliz. Como podia se esquecer, nos anos passados no interior na nave colonizadores, das vezes que, em contato com outras crianças e adolescentes ali presentes, não olhavam e tratavam sua amada como uma figura mítica, como a protagonista de algum conto infantil ou uma pessoa que não compartilhava a mesma realidade deles? Ou mesmo os olhares de desdém, como poderia não repará-los? Mesmo os adultos a apontavam quando se encontravam pelos corredores: era aquela a Herdeira, a garota que, ao chegarem a Alfa-Neo-Gaia, seria uma das principais responsáveis pelos testes de viabilidade da colônia.

Devia ser porque não eram eles que enxugavam as lágrimas de Alissa quando ela desejava ser tratada como uma igual e não como uma deusa-viva, ou mesmo quando os comentários mordazes eram inevitáveis, quem a consolava. Porém, sempre havia alguém para lembrar que ela era descendente de uma “linhagem nobre” da Terra – como se aquilo, naquela época, fizesse realmente alguma diferença – e caberia a ela o teste máximo da viabilidade da Colônia se auto-sustentar: os efeitos de uma gravidade e atmosfera diferentes do planeta-natal na concepção e desenvolvimento de um embrião. Seria um procedimento relativamente simples, caso fosse usada a inseminação artificial tão comum na Terra em qualquer uma das tripulantes a bordo, mesmo que os genes utilizados fossem os da “linhagem nobre” a qual Alissa pertencia,. Entretanto, não era possível, dadas as condições de Alfa-Neo-Gaia, a utilização em larga escala da inseminação artificial assim como ocorria na Terra. Havia os equipamentos básicos para o cuidado com a saúde dos colonos, mas o novo mundo seria povoado da mesma forma que o antigo havia sido - seria mais adequado, inclusive por todo o significado cultural e até mesmo ritualístico que representava.

- Foi uma enorme audácia do Dr. Hershells deixar que um pivete como você convivesse com Alissa por tanto tempo, pensamos nas mais diversas formas de puni-lo por isso! Mas, no fim, sua existência é até bem útil, meu jovem, não pensamos no psicológico de Alissa e é conveniente para nossos fins que ela esteja tão apaixonada por alguém.

Ao ouvir tal voz, o jovem sentiu um nojo tremendo e não pôde evitar lançar um olhar do mais puro ódio à direção de onde ela tinha vindo: Magnus Godchild. Desde a primeira vez que o viu, ainda nos primeiros dias na nave colonizadora, ainda quando era uma criança, o odiou instantaneamente. Os olhos de quem se considerava superior a toda a realidade que o rodeava, o sorriso de quem via não mais do que um inseto em sua frente, como se sua superioridade fosse tão óbvia que todos deveriam ajoelhar-se aos seus pés e desejar longa vida. Inclusive, não era surpresa alguma ver o recém-chegado como Conselheiro – afinal, não era ele um dos homens mais inteligentes da Terra, um dos responsáveis por toda a articulação que levara a nave-colônia para Alfa-Neo-Gaia – e certamente uma das pessoas que traçara o destino de Alissa?

Afinal, a tarefa de dar a luz ao primeiro filho de Alfa-Neo-Gaia era bem simples, não fosse pelo fato de que misturar o sangue nobre de Alissa com algum mero colono seria um enorme desperdício. O primeiro filho, o Descendente da Herdeira, deveria ser fruto da mais nobre das linhagens humanas restantes naquele tempo. A pessoa mais indicada, no caso, seria Magnus Godchild, descendente de uma das famílias mais ricas da antiga Terra, responsável atualmente por parte do financiamento do projeto de expansão espacial, mas que construíra a maior parte de fortuna pisando nos cadáveres gerados pela indústria armamentista. Não foi muito difícil para o cientista, já conhecido nos meios acadêmicos desde a adolescência – ouvira seu padrinho comentar certa vez que talvez pelas enormes injeções de recursos de sua família - , carismático natural e um político dentro das ciências, ser o nome mais cotado para tão honrosa tarefa.

O jovem não podia deixar de pensar que o projeto que envolvia Alissa parecia apenas um disfarce para a ambição de um velho pervertido, possuir um dos maiores legados genéticos da história da humanidade. Para que o Descendente da Herdeira também fosse seu próprio descendente, o herdeiro dos Godchild. Muito conveniente para aqueles que se propunham ser a gênese de um novo mundo! Desde criança, desde quando ainda era inocente o bastante para não perceber os olhos carregados de luxúria, odiava as poucas vezes em que se esbarravam pelos corredores, em que ele fazia questão de frisar o quanto Alissa crescia para se tornar uma garota mais bonita a cada dia. Podia também ver a expressão no olhar da amada, de nojo profundo. Poucas semanas antes, ao chegarem a Alfa-Neo-Gaia, Alissa não pôde acreditar que seria ele seu futuro consorte.

Desde que soube da natureza do destino de Alissa, apesar dos ciúmes e da vontade de tê-la para si, além da revolta por não terem dado a ela nenhuma escolha, compreendeu que não sairia jamais de seu lado, mesmo sabendo que ela invariavelmente seria tocada por algum outro homem. Mas, ao conhecerem identidade desse outro homem, não puderam evitar que a indignação profunda os tomasse. Por que justo Magnus Godchild? Por que justo aquele por quem ambos nutriam um nojo profundo?

Alissa tentou se manter forte, inclusive contemporizando, ao dizer que, afinal, tinha sido criada para tal tarefa. Entretanto, não foi difícil encontrá-la chorando em seu quarto durante as primeiras noites na Colônia, a forma como ela segurava sua mão para que não a deixasse sozinha. Ainda mais quando o casamento fora anunciado para dali alguns dias, não podia suportar sua amada não conseguir fazer as refeições ou não dormir durante a noite. Sua revolta era indisfarçável, assim como a impotência diante das circunstâncias. Fora criada para cumprir seu destino e sabia que não restava alguma escolha a ela, a não ser obedecer. Sempre fizeram questão de deixar bem claro que não cabia questionar, apenas aceitar. Tinha tido a chance de uma vida melhor, criada de uma forma mais atenciosa do que a maioria das crianças em sua situação e tinha uma missão que ninguém além dela seria capaz de cumprir.

Porém, ele tinha a coragem de tentar alguma mudança, por mais que alimentado apenas por uma esperança que saiba ser vã. Ao contrário da Herdeira, entretanto, fora criado para não ter nada a perder – então, o que lhe custava tentar clamar pela humanidade daqueles homens? Ou ela teria ficado na antiga Terra, ao se instalarem na Colônia?

- Jean... Você é apenas uma criança estúpida que não entende a profundidade dos assuntos onde está tentando se meter. E lembre-se: o simples fato de poder colocar os olhos em Alissa deve-se apenas, e pura e simplesmente, à nossa boa-vontade. E tente não perdê-la, pode ser muito pior para você. – Magnus se limitou a dizer.

- Está encerrada a audiência, meu rapaz. Faça a gentileza de se retirar da sala – disse apressadamente um dos outros Conselheiros.

Jean riu com um certo sarcasmo, enquanto saía da sala. Como se pudessem fazer alguma coisa a ele naquelas circunstâncias! Era apenas uma criança estúpida? Em sua cabeça, estava muito clara a real natureza do destino dado a Alissa e faria tudo o que estivesse em seu alcance para modificá-lo. Os Conselheiros ainda o respeitariam, veriam que havia nele muito mais do que um órfão levado à Alfa-Neo-Gaia pela caridade de um cientista!

Tinha certeza de apenas uma coisa: faria mais a diferença para a Colônia do que qualquer um deles!


***

Um clichê velho de roupa nova.

Mas gostariam de ouvir mais histórias de Alissa e Jean? Pois eu gostaria de contá-las...

Quarta-feira, Agosto 01, 2007

E vejo mil anos passarem pelos meus olhos...

Idéias para algumas centenas de crônicas, mas todas elas muito mais pessoais do que aquilo que estou disposta a registrar aqui.

Mais tarde volto com alguma que não seja tão íntima.

Quinta-feira, Junho 28, 2007

Epidemia

- Aperte... logo... o gatilho!

Eu, apavorado, apenas ouvia essas palavras de meu chefe, poucos metros em minha frente. Minhas mãos tremiam enquanto apontavam uma arma em sua direção, certamente não conseguiria atirar sem acertar alguma das mesas ou equipamentos ao invés de extermina-lo! Mas eu não conseguiria, era meu mestre ali!

Seu rosto se contorcia e eu podia ver as veias de seu pescoço saltarem, enquanto um grito de dor ecoava pela sala. Seguimos todos os procedimentos de segurança, por que aquilo tinha de ter acontecido?

Somos pesquisadores do Governo, aquele era o projeto de uma arma biológica capaz de exterminar todo um exército em poucas horas! Era simples: o agente atingiria a corrente sanguínea do indivíduo, paralisando todos os seus nervos e matando-o em alguns poucos segundos. Espalhado por avião, contagiaria os soldados inimigos e os aniquilaria rapidamente. Uma guerra poderia terminar em menos de uma semana, com o máximo de aproveitamento!

Estávamos já nas fase dos últimos testes quando percebemos que algo tinha dado errado. Ao injetarmos o agente em uma cobaia, primeiramente podemos observar seus músculos contraírem e seus olhos injetarem, para em seguida ser possuída por uma sede irracional e incontrolável de sangue. E, o que parecia pior: os animais que não tinham seu sangue drenado desenvolviam os mesmos sintomas e comportamento. Foi preciso atirar neles, com uma arma que havia no laboratório para alguma emergência, para que pudessem parar. Em pouco menos de uma hora, toda uma população de cem ratos havia se tornado um exército de bestas sedentas por sangue.

O Professor tomou uma delas, a única que poupamos para que pudéssemos analisar o que ocorrera de errado, porém, na tentativa de extrair seu sangue, acabou sendo mordido. Passamos por momentos de profunda agonia e nos iludimos com a sensação de que o contágio não passaria para os humanos, mas não foi necessária mais de meia hora para ele apresentar os primeiros sintomas – e o quadro não parava de evoluir, por mais que tentássemos revertê-lo.

Mas não poderia matá-lo, não o homem que tinha me dado uma chance para iniciar minhas pesquisas!

- ATIRE AGORA!!!!!!

Fechei os olhos com todas as forças, como para acordar de um pesadelo. Silêncio. Talvez fosse melhor que o Professor sucumbisse, poderia continuar as pesquisas do ponto onde pararam e corrigi-las.

Ao abri-los, porém, não tive tempo nem para ficar surpreso. Os olhos maníacos olhavam diretamente para os meus, enquanto uma das mãos imobilizava aquela que segurava a arma e nós dois caíamos sobre uma das escrivaninhas.

- Professor!

Nenhuma resposta, apenas a respiração afetada de uma besta pronta para devorar sua presa. A força já não parecia humana, era como se estivesse preso por chumbo ao piso do laboratório, meu corpo estava imobilizado e eu sabia intimamente que já não tinha salvação.

Antes de sentir seus dentes em meu pescoço, podia pensar apenas em dias negros que espreitavam a humanidade...


***

Resident Evil e survial games congêneres? Não, neeeeeem um pouquinho inspirado nisso, imagina...
E isso porque disse que voltaria a atualizar o blog. Mas que blogueira vergonhosa eu sou!

Segunda-feira, Abril 23, 2007

Anjo da Tempestade

Desde os primeiros dias de sua infância, Lilly fora ensinada a crer no Anjo. Eram lendas antigas, contadas aos pés das fogueiras, diziam que o Anjo viria e os redimiria de todos os erros e pecados. Que, para que ele agisse na vida de alguém, bastava acreditar que ele pudesse surgir e um milagre poderia acontecer.

Desde que aprendera a fazer preces, todas as noites ajoelhava-se aos pés de sua cama, desejando a visão do ser que a redimiria de toda a escuridão. Dirigia-lhe palavras doces, desejava encontrá-lo, desejava conhecer o paraíso que ele proporcionaria àqueles que tivessem fé.

Todas as noites, obedecia ao mesmo ritual. Dirigia palavras ao Anjo para que a abençoasse, assim como a todo o seu povo. Enquanto criança, tais preces eram até mesmo esperadas mas, com o passar dos anos, era com olhares de recriminação e mesmo com risos de escárnio que era recebida ao contar sobre sua fé. Aquela era apenas uma lenda, deveria crescer e deixar de acreditar em tais histórias infantis. Não deveria orar por um anjo redentor, afinal quem viria a seu socorro?

Não que esperasse que o Anjo solucionaria todos os seus problemas, mas sabia que ele lhe daria forças para lutar. E, mesmo durante a adolescência, ouvindo protestos de pais e conhecidos, continuava a ajoelhar-se por todas as noites, aos pés de sua cama, repetindo a mesma doce oração.

Continuava a crescer. Ao olhar uma rosa amarela, imaginou que seu Anjo estivesse nela, mas tropeçou e acabou por se ferir nos espinheiros. As lágrimas de dor não foram contidas e um pensamento era inevitável: “por que ele não pôde me proteger?”.

Ainda assim continuou com suas orações diárias, as palavras doces maculadas por um certo amargor. Ouvia risadas, afinal, anjos não pertenciam ao mundo material, por que perder seu tempo com divagações?

Imaginou tê-lo visto no meio de um lago. Ao tentar alcançá-lo, a força da correnteza a afastou e, se não fosse por alguns passantes muito solícitos, teria sucumbido. Então ele não viria por ela quando precisasse?

Continuou as orações, as palavras tornaram-se ásperas. Não tinha a intenção de desistir, mas seu Anjo não seria apenas uma história infantil, como sempre lhe disseram? Começava a acreditar em tal hipótese. Sua fé começava a se abalar.

E quantas pessoas não viam que menosprezavam a figura do Anjo? Usavam-no para justificar seu próprio egoísmo, sua própria inépcia. As pessoas o invocavam sem nem se importar com o que representava, apenas para procurar uma figura para usar de justificativa para sua futilidade. Enojava-se por essas pessoas. Como podiam menosprezar sua fé, o que o Anjo para ela representava?

Encontrou-se também com pessoas que o menosprezavam, quase blasfemavam. Essa é apenas uma idiotice para crédulos, era o que diziam. Não conseguia conviver com essas pessoas, discordava veementemente delas! Horrorizava-se com suas palavras, com seu descaso!

Em uma noite tempestuosa, Lilly ajoelhou-se para seu ritual diário. O coração tremia assustado pelos fortes trovões e relâmpagos da tempestade, mas não deixou de pronunciar nenhuma de suas palavras habituais. Deitou-se um tanto quanto assustada, mas acabou por adormecer.

Foi o mais real de seus sonhos. Estava em um campo florido e uma figura a observada, sorrindo o sorriso mais encantador que jamais vira. Ele sussurrou seu nome, enquanto aproximava-se com um buquê de rosas apanhado na hora:

- Lilly, Lilly, minha pequena Lilly...

- Quem é você? – Tinha uma imensa certeza de quem era, mas a pergunta foi inevitável.

- Aquele para quem fez suas preces por todos esses anos. Estarei sempre aqui com você, Lilly, a protegê-la de todo o mal, para redimi-la de seus erros quando for a hora certa.

A garota não resistiu ao impulso de abraça-lo – e como eram confortáveis seus braços! Como sentia-se reconfortada, como era aquele o lugar onde sempre desejou estar! Por toda a noite, ele a tomou pela mão e passearam juntos pelos campos floridos sem fim, entre sorrisos e risadas.

Foi com uma expressão desapontada que acordou, que percebeu estar na sua cama, em seu quarto. Apenas um sonho? Apenas o sonho com o maior de seus desejos?

Ao apoiar-se para levantar de sua cama, percebeu tocar pétalas de rosas vermelhas. Na verdade, toda a sua cama e quarto estavam repletos de pétalas, assim como o sol brilhava do lado de fora.

Não pôde deixar de rir. Então, não precisava ter medo, sua fé era real! Seria redimida de seus erros e levada ao paraíso pelo Anjo – mas aquele não era seu paraíso particular, onde passara toda a noite?

Tinha um enorme sorriso nos lábios, que ali ficaria perpetuamente. E ainda sentia em seu corpo o calor do Anjo e a certeza que ele sempre a acompanharia.

***

Brega? eu sei.
Simbolismo paulocoelhiano? eu sei.
Mas quem se importa?

Quarta-feira, Abril 18, 2007

Prelúdio de Sombras

Era uma daquelas noites em que apenas as estrelas salpicavam o céu com seu brilho. A pequena vila acalmava-se com o fim das atividades diárias, fossem elas o trabalho de artesãos e camponeses ou mesmo as funções exercidas pelos sacerdotes no templo. Uma tênue fumaça saía de algumas das chaminés relevando que a última refeição do dia estava sendo preparada e o brilho de alguns lampiões podia ser visto através das janelas, revelando habitantes que ainda se mantinham despertos.

Apesar do momento de descanso diário se aproximar, havia uma agitação na praça central da cidade. Em torno de uma fogueira, algumas crianças olhavam para o homem de idade avançada que olhava para elas fixamente, enquanto andava com passos exagerados e ameaçadores para a direção onde estavam sentadas:

- Podem ver as luzes da fogueira? As chamas que se lançam aos céus, as sombras que dançam pelo chão... Pois é. A luz afasta as sombras, as espanta, porém se não há luz, a tendência delas é tomar tudo aquilo que tocam...

Algumas crianças olhavam assustadas para as sombras assustadoras que se formavam no chão, como se dançassem sobre elas, como se fossem engoli-las. Apenas uma delas as olhava com desdém, como se nada fosse capaz de apavorá-lo ou fazer um mínimo arranhão em sua auto-estima.

- Por que vocês têm medo delas? Elas não podem fazer nada contra nós, são apenas imagens!

O ancião riu da petulância do garoto que se levantava com um sorriso desafiador após dizer a frase.

- Mas as Trevas se aproximam, pequeno Gareth, e você precisará de toda a força que guarda dentro de si para poder sobreviver.

As crianças se entreolhavam apavoradas, enquanto Gareth sussurrava algo como “não tenho medo”, sem perder o sorriso de uma superioridade auto-imposta. O ancião também sorria, admirado por ver como aquele menino, mesmo com dez anos, já tinha uma personalidade tão desafiadora. Não podia esperar menos do Primogênito dos Olhos do Céu, muito menos por ser filho de quem era. Era certo que ele realizaria grandes feitos quando fosse mais velho.

- Mas vocês não precisam ter medo. Se a luz permanecer dentro de vocês, as sombras jamais poderão entrar. Jamais se esqueçam disso.

Os olhos curiosamente de cores diferentes de uma menina começaram a lacrimejar. Estava apavorada, como sempre se apavorava em todas aquelas conversas, tinha medo dos monstros que pudessem devorá-la na escuridão. Todas as noites tinha pesadelos sobre ser abandonada por todos, ter de fugir de monstros maiores e mais fortes do que jamais seria, de desaparecer na escuridão sem fim.

- Não precisa chorar, eu vou proteger você.

Sentiu uma mão delicadamente enxugando suas lágrimas e ao olhar para frente, viu Gareth com um sorriso gentil. Aquele menino tão destemido ousava prestar atenção nela, preocupar-se com seus medos! Podia sentir-se um pouco mais confortável.

Por sua vez, um sorriso melancólico percorria o rosto do ancião. Pobres crianças, mal podiam imaginar os tempos sombrios que estavam por vir...

***

Brincando com Gareth e Aurora.
Vocês ainda ouvirão falar deles.