sexta-feira, novembro 04, 2005

Terras Secretas - Capítulo 3: Fúria Adolescente

- Toma, seu desgraçado!

A frase, dita em voz alta, assim como as gargalhadas subseqüentes e as pancadas dadas na máquina ecoaram por todo o salão, como já estava se tornando um hábito diário. Era estranho ressaltar também que o fliperama, depois de tapas que o faziam literalmente levantar do chão, ainda estivesse funcionando depois de tanto tempo maltratado daquela maneira. Outra voz, um pouco mais calma e assustada, dizia:

- Letícia, vamos embora... Daqui a pouco é hora do almoço e depois tem a novela de depois do almoço, não posso perdê-la!

- Nós não vamos embora agora porque estou quase batendo meu recorde! MORRA, SER ESTÚPIDO QUE OUSOU ME DESAFIAAAAR!

As gargalhadas continuavam, assim como os tapas, para desespero da menina gordinha e tímida logo a seu lado. Todo mundo estava olhando para elas! Dava para parar com todo aquele exibicionismo pelo menos, antes que o dono do lugar colocasse seguranças para tirá-las dali?
Mas nada daquilo parecia incomodar a menina pequenina, de pele morena e dos longos cabelos encaracolados presos num rabo-de-cavalo. Era assim praticamente todos os dias, isso quando ela não gastava horas demonstrando seus talentos nas aulas de educação física ou arrumando brigas com outras pessoas. Difícil dizer qual dos meninos do colégio ainda não havia apanhado dela... Pelo menos o videogame de luta tinha diminuído um pouco todo aquele ímpeto de violência, agora dirigido à máquina.

Portanto, não foi surpresa quando dois seguranças engravatados e meio parecidos com guarda-roupas entraram pelo salão e forma diretamente para a máquina onde elas estavam, sendo que um deles perguntou:

- Senhorita Letícia Aguiar?

- MORRA, MORRA! HAHAHAHAHA!

- É ela mesma, senhor, mas nós logo iremos embora daqui, não precisa nos mandar embora!

Letícia, vamos, está na hora de ir...

- Já disse que não está na hora! – Letícia respondeu rispidamente.

Como se o segurança já esperasse por tal reação, rapidamente ele passou os braços por trás dos braços da garota, imobilizando-a enquanto ela percebia o que acontecia:

- Espera aí... Dá pra me soltar? Estou quase chegando nos noventa e nove milhões de pontos, o mais alto do ranking! – Não houve reação, então ela começou a espernear. – Isso é um abuso ao meu direito de ir e vir! ME SOLTA, CARAMBA! Você não pode fazer isso comigo, você não pode me levar assim, isso é um absurdo, isso é contra as leis...

Enquanto Letícia continuava a reclamar, o segurança, sem esboçar reação alguma, continuava a levá-la pelo grande salão até desaparecer pela porta. O segundo segurança observou a outra menina, presumivelmente morta de vergonha, de olhos vidrados no caminho percorrido pela amiga.

- Renata Ribeiro?

Não houve resposta, a menina estava literalmente paralisada. Era demais para ela toda aquela gritaria, bagunça e um segurança levando sua amiga aos gritos para fora. A solução foi pega-la pela mão e arrasta-la para fora assim como se arrastaria uma estátua de gesso. Antes de saírem, o segurança não se esqueceu de distribuir alguns trocados para os poucos meninos que estavam ali jogando qualquer coisa – e que acharam muito bem-feito ver Letícia levada daquele jeito, afinal todos eles já tinham tomado ao mínimo umas cinco surras homéricas em qualquer jogo do estabelecimento, além dos que tomaram algumas pancadas fora do jogo também – e uma quantia um pouco maior para os funcionários do fliperama – que acharam um verdadeiro alívio todo o fim daquela gritaria e barulheira.

Logo, as duas estavam dentro de uma BMW preta, cercadas de seguranças, que seguia rapidamente pelas ruas da cidade na direção da fábrica de cosméticos, visão onipresente para todos, afinal ficava em um ponto alto da cidade e a construção de tijolinhos cor-de-rosa e alguns pontos de néon da mesma cor não passaria despercebida a ninguém, isso com toda a certeza. Neste caso específico não houve muito barulho ou resistência, afinal Renata ainda estava em estado de choque e tinham tomado a decisão de imobilizar Letícia, amarrando-a e amordaçando-a para que ficasse quieta.

As duas jovens foram carregadas pelos corredores da fábrica até chegarem a um elevador, que desceu até alguns andares e chegou em uma base secreta cheia de computadores e cientistas que não tinham mais nada interessante para fazer e ficavam o dia inteiro andando de um lado para o outro com pranchetas na mão. Foram recepcionadas por um sujeito bonitão vestindo um jaleco branco impecável e roupas totalmente informais por baixo dele.

- Sejam bem-vindas, caras convidadas.

Letícia mal acabara de ser desamordaçada e já gritava:

- ISSO É UM VERDADEIRO ABSURDO! Onde estão os meus direitos nisso tudo? Cadê minha liberdade de ir e vir, vocês estão me seqüestrando, entenderam bem, seqüestrando! Quando minha família souber o que está acontecendo aqui vai pôr todos vocês na cadeia, entenderam? CADEIA!

O cientista suspirou profundamente antes de prosseguir:

- Senhorita, sou apenas um empregado aqui, sabe? Eles pagam meu salário em dia e cumprem todas as suas obrigações, além de sobrar dinheiro para comprar roupas bonitas e gel para o cabelo! Eu apenas obedeço ordens, deu pra entender?

- Vocês não estão entendendo, vão me desamarrar AGORA! Como vocês se atrevem a me amarrar, hein? ME SOLTEM IMEDIATAMENTE!

- É melhor para nossa segurança e para a sua que permaneça amarrada, pelo menos enquanto escuta as regras. Depois tudo estará melhor, entendeu?

Por sua vez, Renata ainda estava estática, era como tudo o que acontecia ao seu redor parecesse um sonho muito distante... Era como se tudo estivesse enevoado pela mesma fumaça cor-de-rosa liberada todos os dias pela fábrica às cinco da tarde, era como se tudo estivesse entre a neblina e fosse real. O que estava acontecendo mesmo? Lembrava-se vagamente do fliperama, de uma gritaria, de querer ir embora por ser quase a hora da novela, dos seguranças colocando a amiga para fora... Depois disso tudo ficava enevoado, mas parecia que sua visão voltava... E logo à sua frente...

- BRAD PITT! – Gritou ela, antes de pular em cima do cientista, que começava a se perguntar se apesar de pagarem seu salário em dia tinha feito uma boa escolha ao aceitar aquele emprego.

Os seguranças conseguiram impedir que a menina derrubasse o cientista no chão, o amassasse e mordesse como todas as garotas fanáticas pelo Brad Pitt têm vontade de fazer com o mesmo, fazendo com que o cientista se recomposse e voltasse a falar:

- Não, eu não sou o Brad Pitt, apenas muito parecido com ele. – Ele se controlava para não encher de bolachas a menina que tinha desfeito seu penteado e sujado seu jaleco, além de se perguntar se não deveria manter as duas amarradas. – Vocês estão aqui porque foram convidadas para um projeto muito importante e especial. Nós somos do Conglomerado Reverie e estamos criando um novo sistema que revolucionará o mercado dos MMORPG, o que nos colocará décadas adiante da concorrência. Vocês foram convidadas para testarem o sistema e garantir que tudo estará bem para o lançamento comercial, em breve.

- EU RECUSO. – Gritou Letícia. – Vocês foram me tirar do MEU fliperama pra jogar um desses jogos retardados de matar bichinho e jogar magiquinha? Ah, tenha santa paciência!

- Mas eu não quero perder a novela! – Choramingou Renata.

- Vocês não podem recusar. Estão aqui porque foram selecionadas a dedo para esse projeto e só sairão daqui caso sobrevivam, quando acharmos que deverão sair. Não tem escolha, entenderam bem? Portanto acho melhor as mocinhas se comportarem.

- Ah, sobreviver? ISSO É SEQUESTRO! Assim que meus pais souberem vão processar todos vocês e colocar todos vocês na cadeia, entenderam? Além da indenização milionária que vamos pedir!

- Sabe por que resolvemos fazer nossos experimentos com pessoas deste país, minha cara? Aqui é tudo tão ineficiente que não nos processarão... Além do que, são cinco moscas perto de uma organização de proporções mundiais, acha mesmo que ganhariam algum processo?

- NÃO INTERESSA! A polícia antes do fim do dia estará atrás de vocês!

- Seus pais neste mesmo momento estão sendo avisados e assinando um contrato muito explicativo e exemplificativo sobre tudo o que está acontecendo aqui. E você está cansando a minha beleza, mocinha. – O cientista estalou os dedos e um de seus assistentes apareceu trazendo uma seringa com um estranho conteúdo verde em seu interior. – Vai ficar calminha agora, entendeu?

- QUE PIADA É ESSA? Estão tentando inocular alguma coisa em mim, é? E quem são vocês para acharem que podem fazer isso? – Letícia se debatia entre as cordas, mas o assistente não teve problemas em aplicar-lhe a injeção. – Você vai PAGAR CARO por isso, entendeu? Vai pagar...

Letícia não concluiu a frase por estar levemente adormecida. Renata, ao observar a cena, ainda contida pelos seguranças, perguntou:

- Vai ficar tudo bem com ela, certo? Ela pode parecer nervosa assim mas não é uma má pessoa, só um pouco agitada demais...

- Não haverá problema algum. Logo ela acordará e estará um pouco mais calma. Enquanto ela não acorda, deixarei as duas aqui vigiadas pelos seguranças enquanto os outros não chegam. Não quero que faça nenhuma outra gracinha do tipo, entendeu?

- Tudo bem e... me desculpe por aquela hora, já percebi que o senhor ficou ofendido. Não farei de novo, está bom?

- Affe, que seja. Apenas fique quieta e tudo estará bem, entendeu?

O cientista deixou rapidamente as duas garotas com os seguranças, enquanto suspirava de raiva por ter de pentear novamente os cabelos e haver uma manchinha em seu jaleco impecável, o que o obrigaria a trocá-lo. Criaturinhas irritantes, por ele ainda continuariam os testes com ratinhos por um bom tempo...


***

Algum tempo depois, Letícia ainda estava zonza, mas acompanhada de perto por sua amiga Renata, andava pelos corredores. Tinha uma ligeira vontade de quebrar tudo aquilo, mas tal vontade lhe parecia tãããããão distante naquele momento... Preferia mesmo era sentir o ar-condicionado na pele, respirar fundo aquela atmosfera tão artificial e sentir que a vida fluía por todo o seu ser. Os passos eram vagarosos, sentia seus pés no chão de concreto, era tudo tão belo que dava vontade de declamar poesias.

Renata, por sua vez, estava assustada com o fato da amiga cantarolar Bob Marley e começou a se perguntar o que diabos tinha na injeção que ela tomara...

Tinham sido guiadas para uma sala de reuniões e, no corredor, podiam ver um garoto magrelo cheio de espinhas e boné na cabeça, um outro menino cuja única marca característica eram os cabelos cacheados de cor louro-cinzenta, olhando assustado para todas as lâmpadas e ar-condicionados e um terceiro, cabelos negros muito curtos, um pouco acima do peso e com óculos de fundo de garrafa no rosto. Os cinco se entreolhavam e, ao entrarem na sala designada, conduzidos pelos seguranças, a curiosidade de um em relação ao outro só fazia aumentar. Na sala, um grupo de cientistas, além daqueles responsáveis por recepcioná-los algum tempo antes, os esperavam:

- Amanhã vocês serão levados para a ilha e daremos início ao nosso jogo, ao Projeto Terras Secretas. Nesta noite, serão sedados e receberão os implantes dos chips necessários para a decodificação do software e interpretação dos sinais dos programas pelo cérebro de vocês.

- Por obséquio, desejo inquirir acerca de um ponto. – O garoto de cabelos negros e curtos levantava a mão em seu lugar. – Qual o modo de funcionamento do mecanismo responsável pela transmissão das informações para o tecido nervoso e posterior interpretação?

Marcelo, o garoto de boné, olhando aquela cena, cutucou Igor, a seu lado, e perguntou:

- Cara, que que esse cara ta querendo dizer com isso?

- Sei não... – Foi a resposta.

- Vocês receberão dois implantes de microchips: um deles será implantado na região do pulso e receberá os protocolos WAP responsáveis pelos dados implantados em uma realidade criada por computação. O outro chip, instalado na nuca, transmitirá a informação decodificada para o cérebro, gerando os estímulos visuais e sensoriais responsáveis pelos eventos aos quais serão expostos. Em suma, nossa tecnologia permitirá a junção entre uma realidade virtual e o mundo real, a tal “matrix” idealizada por escritores, pesquisadores e teóricos aplicada à realidade.

- Cê tá entendendo alguma coisa? – Foi a vez de Igor perguntar para Marcelo.

- Tou não, cara. Acho que eles estão falando de filme...

- Testaremos o balanceamento de nossa inteligência artificial responsável pela programação. – Uma das cientistas tomou a palavra. – As reações sensoriais serão reais, independente do dano ter partido de um ambiente virtual. A princípio, pelos testes preliminares, apesar das dores e da sensação de dilaceramento dos membros ser real, não são suficientes para matar uma pessoa devido o choque, apenas paralisá-la. Mas não sabemos se o choque pode ser incontrolável ao ponto de ser fatal a alguém. - Ao ouvirem falar em morte, os quatro adolescentes estremeceram. Letícia, por sua vez, pensava que tudo era yin, yang e zen ao mesmo tempo. A cientista continuou. – Há uma equipe médica de prontidão para eventualidades e serão monitorados 24 horas por dia. Assim que concluirmos que todos os testes estejam acabados, serão trazidos de volta e recompensados pelo auxílio e disposição.

- Mas e meus pais? Eles devem estar preocupados! – Renata perguntou timidamente.

- Eles receberam um contrato e assinaram prontamente, vocês são nossa responsabilidade a partir de agora. Espero que ajam muito bem dentro do jogo e que tudo ocorra de acordo com o planejado. Logo vocês serão enviados para descansar em seus dormitórios e nos encarregaremos de todas as providências necessárias para a partida, que ocorrerá amanhã.

Os cinco adolescentes se entreolharam rapidamente. Era melhor que toda aquela esquisitice acabasse logo antes que algo ainda pior acontecesse com todos eles.

***

Nomes aleatórios.

E até terça que vem. ;-)

4 comentários:

Alexandre disse...

A vida é injusta. Um texto legal e você recebe só dois spams até agora. Mas estou gostando a beça da história. Quero ver aonde isso leva.:)

Piaza disse...

Muito bom, mal dá pra esperar a continuação ( tem uma, não tem ?)

Leonardo disse...

Oi De novo Ana,
Que menininha esquentatinha essa Letícia hein?
Agora fiquei com medo foi da adoradora de novelas...

Anônimo disse...

Querida...MARAVILHA, demais, me avise quando atualizar, é um excelente FOLHETIM.

Abelardo.