terça-feira, novembro 15, 2005

Luz e Sombra

A grande lua cheia era como uma luz de prata no céu noturno, como uma jóia responsável por afastar a escuridão. Olhando para os humanos logo a seus pés, porém, era perceptível que tinham encontrado sua própria maneira de afastá-la: muitas luzes, das mais diferentes cores, formas e intensidades, formavam um dia artificial na grande cidade. Os habitantes dela andavam de um lado para outro tal qual formigas, não interessava ser tarde da noite, era como se realmente o dia nunca tivesse um fim.

Os dois seres estavam sobre a cobertura do maior prédio daquele centro comercial, observando o que ocorria a seus pés. Aquelas eram as jóias do Criador, as criaturas tentadas pela Serpente e expulsas do Éden eras atrás. Os seres dotados dos maiores dos dons: mortalidade e livre-arbítrio. Invejavam-nos.

- Essas são as jóias do Criador... Tão frágeis, dotados apenas do sopro de uma vida breve... – Disse a criatura feminina, contemplando-os.

- Do que adianta sermos imortais se não somos livres? A pouca liberdade que temos nos faz necessariamente escolher um lado ou o outro de uma guerra que não começamos?

- Não esperava vê-lo novamente – Disse ela com um sorriso nos lábios.

- Está tão linda quando do último dia em que nos vimos... Quanto tempo já faz?

- Muito mais do que uma mente humana poderia mensurar, mas para pessoas em nossa situação... Não faz muita diferença. – Os cachos louros refletiam a luz do luar.

- Você está certa.

Ficaram em silêncio por alguns minutos, observando o ir-e-vir das pessoas abaixo deles. A agitação da grande metrópole não podia parar, muito tempo as atribuições do mundo moderno. Eram poucos aqueles que, por alguns minutos, tentavam prestar atenção naquilo que acontecia ao seu redor.

- Tenho inveja deles. – O ser feminino disse.

- E eu, pena. – Foi a resposta do ser masculino.

- Por que pena?

- E por que inveja?

- Porque eles são livres para fazerem suas próprias escolhas. Porque eles não participam de uma guerra que pune ferozmente aqueles que ousam ter uma opinião própria. Porque eles são os seres mais preciosos de toda a Criação, mas não têm consciência disso. Porque a eternidade deles é bem diferente da nossa...

- Sabe que é justamente por isso que tenho pena? Eles se esqueceram disso. Ficaram tão maravilhados com suas próprias criações que se esqueceram de sua própria essência. Já não podem nos ver ou sentir caso passemos perto deles, já não sabem seu lugar entre as esferas e planos, já não pressentem a eternidade destinada a eles. E mesmo o dom da mortalidade é desperdiçado com mesquinharias...

A existência feminina riu baixinho.

- O que foi? – Inquiriu seu acompanhante.

- Acho que ao perceber o que sentimos diante deles fica óbvia qual foi a escolha que fizemos.

Foi a vez da existência masculina rir.

- Não sente saudades do Céu?

- Um pouco. Mas fui punida por pensar demais, caso não se lembra. Cortaram minhas asas e me atiraram fora... É assim que fazem com aqueles diferentes, marcam-nos como demônios e depois os banem.

- Não acho o Céu tão cruel quanto vocês fazem parecer. Você mesma disse que é tudo uma questão de escolha e que somos impelidos a fazê-la. A minha continua a ser estar junto dos outros iguais a mim.

- Manipulado... – Disse ela com desdém.

- Todos os lados são manipulados, minha querida... Agora, tenho afazeres no Céu... Voltaremos a nos encontrar em breve.

O anjo estendeu suas longas asas brancas antes de partir, deixando a demônio nostálgica acerca das asas brancas que perdera um dia. Certamente se encontrariam de novo nos tempos de paz, mas quando a guerra começasse, sabia que os discursos entre eles seriam bem diferentes...

***

E até mais! ;-)

2 comentários:

João Olinto disse...

Curto... mas adoro seus contos e parábolas sobre divindade e a criação, sabe disso!

Piaza disse...

Muito interessante a forma de tratar dos apsectos da criação.