terça-feira, novembro 22, 2005

Aceitação

Desde o meu primeiro momento, me senti como uma peça solta em um lugar que não era o seu.

As risadas de minhas irmãs ecoavam no ar, enquanto elas se davam as mãos e brincavam de roda entre as flores em um dia de verão. Os raios de sol refletidos nas pétalas macias das flores tornavam o ambiente ainda mais bonito e feliz, junto da alegria das garotas... Os vestidos coloridos também brilhavam e faziam com que elas se misturassem com as flores, como se fossem mais uma delas.

Vai ver até eram realmente flores, que só faziam sentido existir se estivessem junto delas. Ou melhor, todos éramos seres das flores. Para os humanos tínhamos muitos nomes, talvez o mais comum deles fosse fadas...

E nesse próprio nome já residia minha condição e minha diferença.

A maioria dos meus iguais eram mulheres. Minhas irmãs, que dançavam alegremente em minha frente, cujas asas brilhavam banhadas de sol, eram mulheres. Conheço muito bem minha posição: somos seres da natureza e funcionamos de acordo com suas regras, minha função neste mundo é a de, quando for o momento, ajudar a Rainha a produzir mais irmãs. É para isso – e somente para isso – que os pouquíssimos machos de nossa espécie existem, para tornarem-se consortes.

A maioria das pessoas costuma resignar-se com o destino que a natureza lhe impõe, mas não conseguia aceitar o meu, apesar de conhecê-lo desde o momento em que despertei para este mundo. Gostaria de poder ser muito mais do que aquilo reservado para mim. Invejava a diversão de minhas irmãs, as risadas que ecoavam no ar enquanto estava eu sentado em uma folha. Elas tinham algo que eu nunca teria: podiam manipular os elementos e criar, com a força que a tudo rege e, por estar muito além da compreensão daqueles que vivem convencionou-se chamar de magia, novas coisas a partir do já existente.

Apesar de ter a aparência física bem semelhante à delas, não tinha a mesma força ou a mesma capacidade. O sentimento de não me aceitar, de querer um sentido maior para aquilo que eu sou, de querer lutar contra o que a própria natureza tinha reservado para mim, estava sempre presente em meu coração. Não sabia descrevê-lo, dar-lhe um nome, colocá-lo em uma categoria. Queria mudar, queria que minha realidade e existência fossem mais do que uma função não muito mais do que decorativa. Queria ir muito além da condição que meu gênero impunha, nem que para isso precisasse desafiar a minha própria natureza.

Queria apenas um lugar para mim, um lugar onde eu fosse uma peça que se encaixasse.

***

Até a próxima. ;-)

Um comentário:

Piaza disse...

Muito legal, mas ficou um pouco vago demais... poderia ser mais longo ou ao menos mais elucidativo.