segunda-feira, junho 19, 2006

Apocalipse Particular

Estava tudo milimetricamente preparado.

Olhava-se no espelho do banheiro, preparando-se para o discurso dali a pouco. Repassava as palavras escritas magistralmente por sua assessoria: estaria ao vivo em todas as televisões, rádios e sites do planeta dentro de poucos minutos. Seria o anúncio mais importante de toda a sua vida, era um dia extremamente feliz, depois de planos feitos por todos os anos!

Logo todos os conflitos terminariam e o mundo retornaria a um ciclo de paz e prosperidade!

Anunciaria que logo toda a humanidade seria salva! Afinal, toda a fome que dominava o mundo terminaria, os terroristas não tirariam a água e os alimentos da população de bem, as doenças que se proliferavam sem fim naquela massa humana pobre e faminta acabariam.

O povo que representava, os eleitos para desfrutarem do mundo, logo o teriam para si, purgado de todo o mal da humanidade! Tinha sido posto no poder por sucessões sem-fim, viera de um conglomerado industrial. Um dos cinco que controlavam 98% da economia mundial – que, na verdade, pertenciam ao mesmo pequeno e seleto grupo de pessoas.

Os exércitos dos países inimigos tinham sido destruídos de forma eficaz, um trabalho perfeito de seus antecessores e dos espiões infiltrados de seu governo. Sem inimigos, a paz estava implantada! Era o Supremo Chanceler, o governo do mundo, o zelar por aquelas bilhões de almas estava em suas mãos!

E claro, para que seus filhos e netos pudessem desfrutar do melhor pedaço de solo para construir sua casa ultratecnológica, ter os alimentos mais saudáveis, a água mais pura e estarem livres das doenças, precisava eliminar as pragas que se reproduziam como formigas, os terroristas.

Eles não podiam aceitar a tecnologia? O mundo era daquele jeito mesmo, precisavam se conformar que o conforto existia apenas para os milhares de privilegiados que podiam consumir produtos dos cinco grandes conglomerados, que não havia conforto o suficiente para todos. Eram apenas pobres almas controlados por religiões fanáticas e líderes sanguinários! Como poderiam tentar ir contra instituições criadas já há séculos?

Mas é claro que eles não entendiam isso, nem depois das armas químicas instaladas – porque para que as crianças puras sobrevivam, é preciso destruí-los antes que as degolem -, dos bombardeios, do fim da pesquisa da cura das doenças que os afligiam. Precisavam entender que eram um entrave para o desenvolvimento do mundo!

Então, entraria em rede mundial naquele momento, a partir de uma das colônias espaciais, onde as pessoas que tinham dinheiro para pagar o traslado se refugiavam do mundo caótico. Faria um discurso sobre como os próximos tempos seriam bons e plenos, como o progresso viria a passos largos.

Em seguida, das colônias, as cidades seriam bombardeadas. As chances eram de que as pobres almas que roubavam os recursos de seus escolhidos seriam eliminados em praticamente sua totalidade.

E se faria a evolução.

***

Música: Do The Evolution, Pearl Jam
Não gosto muito de escrever textos com mensagens políticas explícitas, mas de vez em quando é necessário.

Não faz jus a música, mas...

3 comentários:

Piaza disse...

Bom,mas não parece com você.

Anônimo disse...

Nao gosto de politica...
nao vi politica no texto, mas c vc diz, fazer o que ne.

MilaF disse...

MAS é muito interessante.
Não vi o texto dessa forma, com uma mensagem política, mas, quem sabe, uma mensagem profética...
Vai que daqui a alguns anos nós, o povinho do terceiro mundo, não seremos os "terroristas".
Mesmo assim, de certa forma, não deixo de ver alguma luz nesse texto... no mundo de hoje, algumas pessoas vivem numa miséria tão suprema que às vezes me pergunto se realmente há algo a ser feito por elas. Desespero, pena e vontade de fugir.
Mexeu comigo.