segunda-feira, agosto 08, 2005

Salvador

O gosto dos beijos ainda estava em seus lábios, assim como o delicado cheiro da pele, o som melodioso da voz, a profundidade daqueles olhos tão redondos e negros. Tinha sido tal lembrança que o guiara por caminhos sombrios, pelos rumos mais perigosos, pelas vias mais tortuosas.

“Encontre-me”, foram as palavras que por todo aquele tempo ecoaram em sua mente. Era o som daquelas poucas sílabas perdidos em alguma memória ao que recorria quando sentia-se inseguro, quando cogitara desistir, quando enfrentara adversários poderosos, até mesmo nas vezes em que teve certeza estar próximo aos portões do mundo dos mortos.

Fora a vontade de sentir novamente os lábios doces, o toque delicado, o cheiro suave, de passar os dedos vagarosamente pelos cabelos compridos como se o tempo já não existisse que o movera por todos os percalços. Quando sentiu frio, lembrou-se de seu calor; quando sentiu medo, de seu sorriso; quando perdeu-se, de seus braços.

Podia lembrar-se de como se separaram: em um mundo em guerra, felicidade era privilégio para poucos e, quando acontecia, era fadada a ser destruída depressa. O dia da despedida, as últimas palavras que ela conseguiu pronunciar antes de ser levada pela multidão... “Encontre-me”. Seu mantra, sua prece, sua sina.

Já fazia três anos desde a destruição do vilarejo, desde o momento em que as habilidades dela foram requisitadas para uma guerra com a qual não concordava. De sua desorientação inicial, das provas que precisou passar para se tornar um médico andarilho, das mazelas que presenciara em seu trabalho. Era necessário, era o único método para poder encontrá-la. De vila em vila, de cidade em cidade, de boato em boato; a oportunidade de descobrir onde ela estava.

Finalmente após toda procura, encontrara. Ela estava na torre logo a sua frente: uma prisão para os piores desertores. Conseguira infiltrar-se nas fileiras da invasão daquela cidade e até mesmo chegara a lutar na batalha decisiva pela tomada do lugar, muito além de apenas cuidar dos feridos. Seria fácil libertar aquela prisioneira de seu cativeiro, tinha a permissão dos oficiais, pelos serviços prestados, de resgatá-la.

Era para esse resgate que caminhava com passos decisivos naquele momento.

***

Não fora muito difícil encontrar os calabouços, mas não estava esperado para encontrar o que podia ver diante de seus olhos: a menina delicada que costumava usar vestidos floridos metida em trajes grosseiros; toda a delicadeza dos tecidos delicados trocada pelos trajes de uma mercenária. Todo o porte feérico dera lugar a pernas jogadas no chão displicentemente enquanto estava sentada, os braços erguidos e presos por correntes, a cabeça abaixada e os cabelos que costumavam ser tão sedosos sujos e maltratados.

Sussurrou seu nome de leve, apenas para ela levantar os olhos. Continuavam grandes e profundos, mas carregavam uma selvageria que desconhecia.

- Finalmente te encontrei...

Após os momentos de estranhamento inicial, ouviu-a rir, surpresa com a situação.

- Está bastante diferente do que me lembre...

- Você também. – Não podia disfarçar a surpresa de seus olhos.

- Veio visitar-me?

- Vim tirá-la daqui.

As palavras foram suficientes para fazê-la gargalhar. Estava realmente surpresa em vê-lo ali, na porta daquela cela pronto para libertá-la. Se tinha alguma ilusão a respeito de príncipes em cavalos brancos, a guerra tinha se encarregado de destruí-la e não deixava de ser uma surpresa vê-lo ali, naquele momento.

O médico foi rápido em soltar sua amada dos grilhões. Sempre esperá-la encontrar com o mesmo sorriso doce, com os olhos marotos de uma garota, o mesmo vestidinho rodado, os mesmos pés descalços correndo pela grama e os cabelos esvoaçando com o efeito do vento... Era a doce imagem que carregava durante todas as noites e dias, em seus sonhos em pensamento, em suas motivações e metas.

- Tornou-se um médico, não?

- Sim. Trabalho com a salvação nas linhas de batalha... Foi o jeito que achei para encontrá-la.

Ela sorriu de uma maneira estranha ao ouvir a frase. Não era o sorriso de uma menina alegre que se animava ao ouvir as novidades de um dia, mas de alguém que ouvira uma história tão absurda na qual não conseguia acreditar.

- Encontrou-me em um bom momento.

Ele sorriu envergonhado, enquanto abria a porta educadamente para que ela passasse. Os passos eram duros e fortes, gingados como de alguém que precisava mover-se da melhor forma possível em batalhas. Ela disse duramente enquanto saíam da construção:

- Sabe por que fui presa? - O médico limitou-se a negar com a cabeça. – Porque entreguei aqueles idiotas a quem pagava um preço melhor. Olha só... Acabei descoberta, mas são realmente um bando de incompetentes achando que dariam um fim a mim.

As palavras eram duras, o coração talvez fosse mais. Ele sentia como se algo dentro dele fosse destruído devagar e dolorosamente, como se tivesse cometido um engano terrível. Era numa mercenária que pensava apenas em dinheiro que sua doce menina se transformara? A linda moça que adorava sentir o perfume das flores se transformara em uma guerreira que nenhum valor dava a uma vida?

Ao chegarem ao lado de fora, ao invés das palavras que ensaiara durante todo aquele tempo a respeito de viverem novamente como os amantes que eram, em como era bom reencontrá-la, em contar a respeito de todas as batalhas que presenciara e em cada momento que pensara nela, conseguiu dizer apenas:

- Para onde vai agora?

- Não sei. Procurar quem me pague melhor em algum lugar.

Tinha a esperança vazia de que talvez ela dissesse que queria seguir com ele para qualquer lugar que fosse, que pudessem estar juntos novamente. Era como se toda a caminhada que fizera até aquele ponto não tivesse sentido algum.

- Você certamente quer um agradecimento, não?

Sentiu os lábios que não eram mais doces beijando-o com furor. Já não era o beijo que continha o paraíso... Era marcado pela luxúria, pelo prazer do corpo, pelas inúmeras camas onde ela já tinha se deitado. Afastou-a levemente enquanto sussurrou baixinho, muito mais para ele mesmo do que para qualquer outra pessoa:

- Adeus.

Partiu sem voltar os olhos para trás, enquanto evitava com todas as forças que alguma lágrima caísse de seu rosto. As vidas salvas valiam toda a caminhada, as alegrias de poder colaborar para trazer um pouco de felicidade às vítimas dos tempos compensara todos os esforços. Continuaria caminhando para salvar inocentes, era aquele o caminho que tinha escolhido para si e não tinha por que voltar atrás. Mas, naquele momento, percebeu que a única pessoa que gostaria realmente de salvar estava eternamente perdida.

Sua amada, seu sonho, sua meta... Estava para sempre morta.

***
Sim, é melancólico. Estou meio melancólica.
Foi inspirado em duas frases... "Heaven is in your kiss / Salvation lies just a touch away". Não parece muito com elas, enfim...

Então... Até a próxima terça!

4 comentários:

Alexandre disse...

Eu gostei do tom realista da coisa. Realmente, as pessoas mudam.

João disse...

"Bela" forma de dizer "quando os sonhos se vão", em que a princesa encantada se revela uma Xena da vida.

Piaza disse...

É melancílico, mas tem uma dignidade terrível, uma certeza de que nada é para sempre.

The Rose® disse...

Ok, ok...stop crying now. I'm here!!

Melancólico sim e mto. Quase uma surra como "Closer", mas mesmo assim mui bello!