quarta-feira, agosto 22, 2007

A Gênese de um Novo Mundo

Estava diante do Conselho e, podia ter certeza disso, não havia uma única sombra de dúvida transpassando sua alma sobre qual seria a atitude a ser tomada. Não temia a reação dos Conselheiros – e nem teria o que temer, afinal, o máximo que poderiam fazer seria rir das requisições de uma “criança insolente”.

O Conselho era a autoridade máxima da Colônia – e não era difícil administrar pouco mais do que as duzentas e cinquenta pessoas que ali viviam naquele momento. Provavelmente, no futuro, findos os testes, enviariam mais duzentos indivíduos para compor a população local e talvez, caso aquele fosse um local viável, mais algumas centenas de pessoas para ali recomeçarem a vida.

Sentiu um calafrio percorrer sua espinha ao pensar em tal fato. Tinha plena consciência, desde que estudava na nave colonizadora, que o pedido a ser feito dificilmente seria aceito, mas arriscava apelar aos Conselheiros por um pouco de humanidade. E, talvez mais do que isso, lutar pelo que realmente fazia diferença a ele?

Sempre soube estar do lado de uma das pessoas mais especiais que jamais haviam existido no universo inteiro. Não por ser descendente dos genomas mais nobres já passados pelo planeta Terra, por ter sido criada como uma grande esperança e um grande passo para um avanço científico. Como clamar por humanidade de pessoas que nunca perceberam o quão frágil ela era? Que nunca a ouviram chorar após acordar de um pesadelo ou mesmo tomá-la braços quando se sentia sozinha.

Não saberia dizer quando começara a amá-la, talvez ao ver os olhos negros fitarem com curiosidade as paredes metálicas da entrada da nave e assustarem-se ao perceber que o interior da sala onde passaria a maior parte das horas dos próximos anos se parecia com a idéia de uma biblioteca européia de muitos séculos anteriores. Ali teria sua educação formal e seria preparada para o dever já determinado para ela e sobre o qual nunca teve escolha.

Talvez fosse uma coincidência adorável para as pessoas acima deles que ela houvesse ficado órfã ainda tão cedo e não tivesse pessoas a quem preocupar quando estivesse de partida para Alfa-Neo-Gaia. Provavelmente, o único adulto que a vira como uma menina que precisava de educação e afeto tinha sido o tutor para ela designado – seu padrinho, era um favor político a permissão para levar consigo o afilhado igualmente órfão e sem muitas perspectivas na Terra, apenas mais um na multidão.

Agora, ousava postar-se diante dos mesmos adultos e clamar por sua piedade...

- Qual é o pedido que justifica a audiência perante este Conselho, meu jovem?

- Por que, pelo menos por uma única vez, não vêem Alissa mais como uma garota e menos como um experimento em suas mãos? Vim aqui para expor minha disposição em desposá-la.

Os cinco Conselheiros riram-se como se o maior absurdo já dito naquele quadrante galáctico tivesse sido proferido.

- Acha que as decisões já planejadas e delineadas por anos seriam impedidas pelo simples capricho de um adolescente? O Dr. Hershells não conseguiu demonstrar a importância que Alissa tem para nós?

O jovem, porém, estava firme em sua convicção. A felicidade de Alissa estava em suas mãos, não havia ninguém que a pudesse fazer mais feliz. Como podia se esquecer, nos anos passados no interior na nave colonizadores, das vezes que, em contato com outras crianças e adolescentes ali presentes, não olhavam e tratavam sua amada como uma figura mítica, como a protagonista de algum conto infantil ou uma pessoa que não compartilhava a mesma realidade deles? Ou mesmo os olhares de desdém, como poderia não repará-los? Mesmo os adultos a apontavam quando se encontravam pelos corredores: era aquela a Herdeira, a garota que, ao chegarem a Alfa-Neo-Gaia, seria uma das principais responsáveis pelos testes de viabilidade da colônia.

Devia ser porque não eram eles que enxugavam as lágrimas de Alissa quando ela desejava ser tratada como uma igual e não como uma deusa-viva, ou mesmo quando os comentários mordazes eram inevitáveis, quem a consolava. Porém, sempre havia alguém para lembrar que ela era descendente de uma “linhagem nobre” da Terra – como se aquilo, naquela época, fizesse realmente alguma diferença – e caberia a ela o teste máximo da viabilidade da Colônia se auto-sustentar: os efeitos de uma gravidade e atmosfera diferentes do planeta-natal na concepção e desenvolvimento de um embrião. Seria um procedimento relativamente simples, caso fosse usada a inseminação artificial tão comum na Terra em qualquer uma das tripulantes a bordo, mesmo que os genes utilizados fossem os da “linhagem nobre” a qual Alissa pertencia,. Entretanto, não era possível, dadas as condições de Alfa-Neo-Gaia, a utilização em larga escala da inseminação artificial assim como ocorria na Terra. Havia os equipamentos básicos para o cuidado com a saúde dos colonos, mas o novo mundo seria povoado da mesma forma que o antigo havia sido - seria mais adequado, inclusive por todo o significado cultural e até mesmo ritualístico que representava.

- Foi uma enorme audácia do Dr. Hershells deixar que um pivete como você convivesse com Alissa por tanto tempo, pensamos nas mais diversas formas de puni-lo por isso! Mas, no fim, sua existência é até bem útil, meu jovem, não pensamos no psicológico de Alissa e é conveniente para nossos fins que ela esteja tão apaixonada por alguém.

Ao ouvir tal voz, o jovem sentiu um nojo tremendo e não pôde evitar lançar um olhar do mais puro ódio à direção de onde ela tinha vindo: Magnus Godchild. Desde a primeira vez que o viu, ainda nos primeiros dias na nave colonizadora, ainda quando era uma criança, o odiou instantaneamente. Os olhos de quem se considerava superior a toda a realidade que o rodeava, o sorriso de quem via não mais do que um inseto em sua frente, como se sua superioridade fosse tão óbvia que todos deveriam ajoelhar-se aos seus pés e desejar longa vida. Inclusive, não era surpresa alguma ver o recém-chegado como Conselheiro – afinal, não era ele um dos homens mais inteligentes da Terra, um dos responsáveis por toda a articulação que levara a nave-colônia para Alfa-Neo-Gaia – e certamente uma das pessoas que traçara o destino de Alissa?

Afinal, a tarefa de dar a luz ao primeiro filho de Alfa-Neo-Gaia era bem simples, não fosse pelo fato de que misturar o sangue nobre de Alissa com algum mero colono seria um enorme desperdício. O primeiro filho, o Descendente da Herdeira, deveria ser fruto da mais nobre das linhagens humanas restantes naquele tempo. A pessoa mais indicada, no caso, seria Magnus Godchild, descendente de uma das famílias mais ricas da antiga Terra, responsável atualmente por parte do financiamento do projeto de expansão espacial, mas que construíra a maior parte de fortuna pisando nos cadáveres gerados pela indústria armamentista. Não foi muito difícil para o cientista, já conhecido nos meios acadêmicos desde a adolescência – ouvira seu padrinho comentar certa vez que talvez pelas enormes injeções de recursos de sua família - , carismático natural e um político dentro das ciências, ser o nome mais cotado para tão honrosa tarefa.

O jovem não podia deixar de pensar que o projeto que envolvia Alissa parecia apenas um disfarce para a ambição de um velho pervertido, possuir um dos maiores legados genéticos da história da humanidade. Para que o Descendente da Herdeira também fosse seu próprio descendente, o herdeiro dos Godchild. Muito conveniente para aqueles que se propunham ser a gênese de um novo mundo! Desde criança, desde quando ainda era inocente o bastante para não perceber os olhos carregados de luxúria, odiava as poucas vezes em que se esbarravam pelos corredores, em que ele fazia questão de frisar o quanto Alissa crescia para se tornar uma garota mais bonita a cada dia. Podia também ver a expressão no olhar da amada, de nojo profundo. Poucas semanas antes, ao chegarem a Alfa-Neo-Gaia, Alissa não pôde acreditar que seria ele seu futuro consorte.

Desde que soube da natureza do destino de Alissa, apesar dos ciúmes e da vontade de tê-la para si, além da revolta por não terem dado a ela nenhuma escolha, compreendeu que não sairia jamais de seu lado, mesmo sabendo que ela invariavelmente seria tocada por algum outro homem. Mas, ao conhecerem identidade desse outro homem, não puderam evitar que a indignação profunda os tomasse. Por que justo Magnus Godchild? Por que justo aquele por quem ambos nutriam um nojo profundo?

Alissa tentou se manter forte, inclusive contemporizando, ao dizer que, afinal, tinha sido criada para tal tarefa. Entretanto, não foi difícil encontrá-la chorando em seu quarto durante as primeiras noites na Colônia, a forma como ela segurava sua mão para que não a deixasse sozinha. Ainda mais quando o casamento fora anunciado para dali alguns dias, não podia suportar sua amada não conseguir fazer as refeições ou não dormir durante a noite. Sua revolta era indisfarçável, assim como a impotência diante das circunstâncias. Fora criada para cumprir seu destino e sabia que não restava alguma escolha a ela, a não ser obedecer. Sempre fizeram questão de deixar bem claro que não cabia questionar, apenas aceitar. Tinha tido a chance de uma vida melhor, criada de uma forma mais atenciosa do que a maioria das crianças em sua situação e tinha uma missão que ninguém além dela seria capaz de cumprir.

Porém, ele tinha a coragem de tentar alguma mudança, por mais que alimentado apenas por uma esperança que saiba ser vã. Ao contrário da Herdeira, entretanto, fora criado para não ter nada a perder – então, o que lhe custava tentar clamar pela humanidade daqueles homens? Ou ela teria ficado na antiga Terra, ao se instalarem na Colônia?

- Jean... Você é apenas uma criança estúpida que não entende a profundidade dos assuntos onde está tentando se meter. E lembre-se: o simples fato de poder colocar os olhos em Alissa deve-se apenas, e pura e simplesmente, à nossa boa-vontade. E tente não perdê-la, pode ser muito pior para você. – Magnus se limitou a dizer.

- Está encerrada a audiência, meu rapaz. Faça a gentileza de se retirar da sala – disse apressadamente um dos outros Conselheiros.

Jean riu com um certo sarcasmo, enquanto saía da sala. Como se pudessem fazer alguma coisa a ele naquelas circunstâncias! Era apenas uma criança estúpida? Em sua cabeça, estava muito clara a real natureza do destino dado a Alissa e faria tudo o que estivesse em seu alcance para modificá-lo. Os Conselheiros ainda o respeitariam, veriam que havia nele muito mais do que um órfão levado à Alfa-Neo-Gaia pela caridade de um cientista!

Tinha certeza de apenas uma coisa: faria mais a diferença para a Colônia do que qualquer um deles!


***

Um clichê velho de roupa nova.

Mas gostariam de ouvir mais histórias de Alissa e Jean? Pois eu gostaria de contá-las...

2 comentários:

Aroldo disse...

Gostei bastante do conto, foi fácil e gostoso de ler. Gostei do fato de não ter sido apenas uma história clichê ao ponto do personagem principal ficar com a mocinha no fim e tudo o mais.

Sim, quero ver mais =D

Raphael C. disse...

Eu realmente vi a palavra "clichê" reverberar na cabeça durante a leitura, mas a intenção de fazê-lo propositadamente no texto quebrou essa sensação.

Texto fácil de ser lido, é uma boa opção... só sinto falta de um pouco de seqüência, vc tem postado textos soltos ._.