terça-feira, setembro 20, 2005

Herói

Não sabia mais há quanto tempo estava caminhando, tinha perdido as contas de quantos dias fazia desde que sua jornada tinha começado, assim como já não sabia mais quantos tinha matado. Homens, monstros, demônios... Criaturas que se opunham ao seu caminho e ameaçavam sua vida. Sobrevivência. Era o que contava.

Um dia tivera nos olhos o brilho de um jovem que queria mudar o mundo, mas atualmente era apenas um espadachim embrutecido pelas batalhas. Tinha visto o inferno tantas vezes que este já não lhe apavorava, pois acabara por se tornar tão ameaçador quanto aquilo que precisava enfrentar. Já não desejava mudar o mundo, queria apenas manter-se vivo.

Andava por uma estrada vazia. Precisava manter-se alerta, não sabia o que poderia surgir... Talvez fosse tal alerta constante que o fez ouvir alguns sons estranhos e, indo na direção deles, percebeu um menino de não mais que dez anos de idade cercado por lobos.

O que eram lobos diante de tudo o que ele já tivera de enfrentar até aquele dia? Eram quase tão inofensivos para ele quanto cachorrinhos... Porém, para aquele menino, eram tão apavorantes e mortais quanto o maior dos dragões.

Não era sua função salvar pessoas que não tinham condições de se auto-proteger, mas antes mesmo que pudesse pensar a respeito do que fazia, sua espada já estava fora da bainha e pedaços de lobo jaziam pelo chão enquanto o menino olhava para ele.

- Está salvo agora. – Limitou-se a dizer.

O menino nada disse. Podia perceber, todavia, o brilho indisfarçável de seus olhos. Era muito mais do que o agradecimento pela vida salva: era uma admiração incondicional. Em um mundo de guerras, não havia nada de extraordinário em ser um espadachim, mas aquele menino o olhava como se fosse sobre-humano.

Como se fosse um título que abominava mais do que tudo.

Como se fosse... Um herói.

- Senhor... Obrigado...

Aqueles olhos... Não havia gratidão mais sincera do que a presente naquele olhar. O menino levantou-se e tocou-o com a mesma reverência que tocaria em uma deidade e disse:

- Senhor, venha comigo até minha aldeia!

A frase fora dita numa alegria pueril tão contagiante que não admitiu recusa. Não era seu papel proteger pessoa alguma e nem impedir a morte de ninguém, mas gostaria de garantir que a criança chegasse bem em casa, fosse recebida por pais que deveriam esperar ansiosos por notícias do filho e seguir com sua vida.

Afinal, logo ele também teria nos olhos o brilho daqueles que querem mudar o mundo.

***

Esse é um miniconto feito especialmente para uma lista de discussões ao qual pertenço.
Não gostei muito do TAMANHO dele, achei que tudo ficou condensado demais, mas vale como experiência.
Pode ser que ganhe versão extendida. Pode ser. :-)

Até a próxima terça ;-)

4 comentários:

Mariana disse...

Ei Aninha!
Adorei o conto dessa semana... piquinininho mas foi legal...

piaza disse...

Muito bom, apesar de pequeno é um dos melhores que li, sincero sem ser piegas, e sem heroínas incrivelmente overpower.

Zed disse...

Ei, eu quero versão estendida desse conto!!! Tá ótimo, como sempre!! ;)

Lexas disse...

Também quero uma versão estendida do conto, ficou muito bom! Curto, mas passou - e bem - a mensagem